Assuntos como religião e ciências -
enquanto opositores na formação do conceito de ética - sempre foram
responsáveis por boas discussões, tanto em nível científico como em mesas de
bares. Poucas coisas têm tanto poder de atiçar os ânimos dos debatentes quanto
os assuntos ligados a valores morais e/ou religião. Penso não ser exagero falar
que, ao se propor uma discussão nessa área, o fracasso é inevitável caso
tenhamos como objetivo chegar ao final do debate com alguma conclusão
definitiva.

Num primeiro momento poderia nos
parecer razoável que discussões acerca de bioética, por exemplo, considerassem
apenas aspectos tangíveis ou científicos, excluído tanto as questões religiosas
quanto as ideológicas, pensando que assim estaríamos afastando da mesa de
discussões, os motivos de maior polêmica, possibilitando uma maior concentração
no que podemos comprovar através do método científico. No entanto, não podemos simplesmente
desconsiderar questões intrínsecas da natureza humana, como a fé, pois muitas
das consequências de decisões tomadas nesta área permeiam este campo. Mesmo para
quem defende uma ou outra visão da questão com toda convicção que se pode ter,
deve ao menos ponderar o contraditório.
Sem precisar procurar muito, observaremos
uma diversidade de opiniões a respeito do tema: Uns pendem para o lado da
ciência, outros para a religião, alguns são totalmente apático a uma ou outra
ideia e simplesmente se fecham para a oportunidade de aprender com a
diversidade. No século XIX, acreditava-se que a ciência acabaria por sepultar a
religião, uma vez que oferecia respostas universais às perguntas que antes era
oferecida de maneira relativa pela religião. No entanto o tempo nos mostrou que
a cada descoberta da ciência acerca da formação do universo, o papel de Deus
neste processo parecia aumentar numa progressão geométrica: As grandes
descobertas nos mostravam que a complexidade da criação ia muito além da
narrativa bíblica sem, no entanto, invalidá-la.
Ciência e religião não precisam andar
separadas, e acredito que a polêmica que envolve esta questão, possa encontrar
nessa afirmação, a oportunidade necessária para uma discussão menos passional:
ora, não é necessário ser religioso para admitir a importância das religiões
para o aperfeiçoamento ético das sociedades influenciadas por elas, nem tão
pouco é preciso ser cético ou ateu para atribuir à ciência toda a sua
importância para o desenvolvimento de uma ética pautada em princípios
universais onde os opostos encontram a convergência inquestionável do
experimento científico.